sexta-feira, 5 de abril de 2013

Até longo meu amigo.


E em um segundo secular,
Você sente que tudo mudou.
Que a terra já não é mais redonda.
Não que as dificuldades e afazeres corriqueiros,
tenham ficado piores.
São os mesmos de sempre. Com a mesma exigência
e empenho.
Mas agora, está sozinho.
E não nada que faça tudo ser mais penoso e triste
do que estar sozinho.
O que dava graça e beleza às horas
se fora.
E você, mesmo sem querer,
principalmente sem querer,
Se vê obrigado e endurecer.
Já não há mais tanto riso.
Nem mesmo lágrimas.
É endurecer, ou desistir de tudo.
Até logo, meu amigo.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

E vc, está 'Serto'?


Sempre que escuto ou leio um discurso ideológico, que defende um posicionamento qualquer, me impressiona como ambos os lados se assemelham na maneira de defender suas ideias. É quase unânime quando se trata de assuntos polémicos usar o argumento ad hominem, de que aqueles que não compartilham o mesmo ponto de vista defendido, o fazem por serem ignorantes e/ou porque são manipulados. Já que defendem, pra todos os efeitos, a verdade. Parece provável que tao preposição seja verídica em alguns casos, pelas devidas razões. Mas não em todos, ou em tantos. Ainda mais se tratando de assuntos cuja verdade não é tão simples de ser encontrada.
Podem dizer que é óbvio que alguém vá defender uma causa apenas se fizer sentido, se parecer verdadeira. Claro. Mas o problema não está em defender uma causa, qualquer seja ela. Mas em fazer dessa ideia um dogma. A preposição então, não é apenas verdadeira mas inquestionável. De forma que todos que não a defendem, só o podem fazer, não pela possibilidade de estarem certos, mas porque ignoram a “verdade”. A partir deste ponto, sua ideologia se tornou uma religião.
A falha de raciocínio lógico em tal caso, é mais fácil de ser entendida do que percebida. Ainda mais laborioso, evitá-la. O processo de religionização ocorre porque ao invés de fazer uso da razão para fundamentar a ideia, a ideia é usada para fundamentar a razão. Esse é o grande perigo de fazer parte de grupos ideológicos. Quando levanta uma bandeira, o indivíduo aceita todo um conjunto de valores e ideias, sem questioná-los. Afinal, quem que questione tais ideias de um grupo, irá fazer parte dele? E qual grupo irá aceitar um membro que o questione?
Mas existe uma razão simples para aceitar ou referir uma ideia como verdadeira precipitadamente. Nomeado pela ciência de “Efeito Dunning-Kruger”.  Um fenómeno em que indivíduos que sabem pouco sobre um assunto, acreditam saber muito, ou mais do que aqueles que realmente conhecem. Todos nós temos um exemplo prático de alguém que se porte dessa maneira. Mais complicado porém, é perceber quando esses indivíduo é você mesmo.

sábado, 9 de março de 2013

Como estar sempre Serto (com 'S' mesmo)


É fácil ter razão. É fácil dizer ou escrever algo que a maioria vai concordar e apoiar. Pouco é preciso para que aclamem sua inteligência, perspicácia e sensibilidade. Conquistará a todos, e por incrível que parece, conseguirá até convencer alguns da veracidade de ideias anciãs. Basta usar tom de protesto e reclamar da situação dos pobres. Esqueça os dados e não tente ser muito preciso. Não reclame de algo particular da Vila do Acaba Mundo em Belo Horizonte ou dos arredores de Jequitinhonha-MG. Esqueça. Fale dos “pobres”, ou dos “moradores das favelas”. Se quiser inflar ainda mais seu lado humanitário, reclame da situação da favela do mundo. A África. Sim, como se fosse um país mesmo. Formado por pessoas raquíticas esfomeadas que moram em vilas tribais no meio da savana.
A mesma linha de raciocínio pode ser usada para diversos contextos, para você não precisar falar sempre do mesmo assunto e acabar parecendo um idiota. Mude o alvo. Troque “os pobres” para qualquer outro “oprimido” (e esse é um bom termo, anote). Defenda os camponeses (fica um pouco melhor do que ‘trabalhadores rurais’), os negros, os povos indígenas, os gays, as mulheres, o meio ambiente. Não esqueça de se dizer socialista, ou melhor um pouco, Marxista. Deixe claro que apenas deseja que todos fossem tratados como iguais, mas crie rótulos e levante bandeiras. Afinal, o que essas pessoas precisam é de teóricos que deixem bem claro o quanto a situação delas é ruim.
Claro que os problemas precisam de causas. Não se preocupe, não é agora que lhe exigirão sentido. O maniqueísmo é uma ferramenta precisa e serve com eficiência. Assim como toda essa linha de pensamento, é um modelo simples: demonize a antítese daquele que defende. Culpe, não sem demonstrar indignação, o capitalismo, os ricos, a mídia, o governo, os políticos e o fato de que ao contrário de você, as pessoas são ignorantes, mas apenas vítimas, impedidas de pensar por própria vontade por interesses perversos. Exponha que a solução é fácil: As pessoas deveriam ser mais sensíveis e tolerantes umas com as outras. Enfatize que se todos compartilhassem sua visão, os problemas seriam resolvidos. Não tolere quem discorde ou pense diferente e não perca a oportunidade de moraliza-los, logo que qualquer um que não concorde com você, é ignorante e/ou defende interesses espúrios.
Finalmente, participe de manifestações e poste fotos nas redes sociais para provar que você não só fala como faz. Demonstre sua insatisfação pelo número pequeno de participantes. Critique a postura de todos que estão alheios ao seu exemplo, ou seja, “o povo”, “as pessoas”. Porque são pobres imbecis manipulados ao bel-prazer das grandes corporações. Abuse de frases de efeito e citações. Evite usar o termo ‘sistema’. Caiu em desuso até pelos mais néscios.
Pronto. Sua inteligência e seu modo de pensar diferenciado serão consagrados por todos à sua volta, e você se tornará um ícone para os que lutam por um mundo melhor. Além do mais, estará provado que você não é mais um que está sendo manipulado e que deixa as injustiças acontecerem. Não tenha medo, é tão singelo quanto parece. Com garantias de que funciona, afinal, é um discurso que está em uso por pelo menos 200 anos. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

A madrugada


A madrugada me desperta sem sono
as mesmas perguntas de sempre
novamente me assombram.
Resolvo acender um cigarro.
não para pensar nas respostas
Mas para evitar de pensar nelas.
Meu estômago já tão massacrado
por álcool e café
Não demora a reclamar.
a fumaça rapidamente
empesteia o o quarto
e imediatamente arrependo
da minha decisão.
Mas não antes de terminar o cigarro.
Já são 6 e 15.
Tarde demais pra dormir.
Cedo demais para levantar.
Tenha um bom dia, diz o dia. Em tom de deboche.
Vai se fuder. Eu respondo com sinceridade.
E permaneço imóvel
até não aguentar mais.
Mas eu sempre aguento.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um dia como outro qualquer



Sim. Esperava o velho cliché de um dia como outro qualquer. Mas na verdade, fora um tanto pior. Demorado, mesmo para uma quinta-feira. O sentimento de incompetência profissional e fiasco pessoal eclodiram quase que ao mesmo tempo nas bravatas rudes do chefe e ao descobrir, por acidente, que o antigo (e nem por isso menos eterno) amor estava noiva de um qualquer. 
Resignado, ao menos já estava em casa. A fome remanescia extinta, mas não faria falta. De fato, havia muito para ser digerido hoje. Arranca as roupas na sala mesmo, logo que chega. Afinal, não há mais ninguém em casa. Não há mais ninguém em canto algum. A camisa molhada de lágrimas e suor, a calça amarrotada e no corpo por mais de uma semana, se mostrava tão liquidada quanto quem a usava.
Sentado no vaso sanitário, se vê burro, velho, disforme e falido. No momento, não sente em nada diferente da matéria fecal que suja a porcelana alva. É apenas uma extensão de seu corpo. Sem forças para acreditar em mudanças positivas, se pergunta se as coisas podem ainda ficar piores. Mas o velho axioma mostra-se plausível, quando um som mata o silêncio sepulcral do banheiro e ao girar o rosto, um segundo antes das luzes se apagarem, vê a maçaneta dar meia volta...


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Então imaginemos a cena: Um indivíduo, depois de um mês em estado de coma, acorda hoje, subida e inesperadamente. Passados os momentos de reencontro e emoção com a família e amigos, questiona sobre os acontecimentos que perdera no tempo em que esteve inconsciente.
- E então, o que aconteceu de novo nos últimos 30 dias?
- Bom, eu comprei um carro 0 Km, caiu um meteoro na Rússia, o Papa renunciou e a Coreia do Norte fez um teste de uma arma nuclear. – Responde aquele amigo zombeteiro que todos temos.
- Está bom. E você quer que eu acredite em você?
- ahahahaha. Estou brincando. Não comprei um carro.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Ah o Progresso....


O mundo contemporâneo é maravilhoso! Pense bem, tudo está disponível de acesso fácil, pronto para nos ajudar, diminuindo nosso esforço e aumentando nosso tempo livre. Imaginemos como seria laborioso algo tão banal como nos alimentar. Cada folha, cada grão, cada vegetal, deveria ser cultivado e colhido. Meses para chegar ao resultado de uma trivial cenoura, mirrada e raquítica, em nada comparada com as encontradas no supermercado. Carne? Quem nunca participou de um abate de porco no interior de Minas não imagina o quanto é trabalhoso. Isso sem contar a cria do animal em si. As galinhas hoje demoram cerca de 28 dias para ser abatidas gordas e suculentas. No sítio, com 28 dias, o pinto nem pena deve ter. Nada disso nos importuna. Não mais. Basta andar poucos quarteirões de carro e obtemos tudo pronto. Ou se preferir, comprar pela internet. Sem nem mesmo ter que sair de casa. Grande economia de tempo e esforço!
Já imaginaram costurar as próprias roupas? Isso considerando o avanço de ter o tecido pronto. Nem quero saber o longo processo envolvido do plantio do algodão até obter o pano trançado. Apenas para ilustrar o quão simples nossa vida é hoje, comparada com a de alguns séculos atrás. Tudo demandava muito esforço e tempo. Mesmo as coisas que nos são banais. Roupas, comida, calçados, materiais de higiene, utensílios domésticos. Para andar poucas centenas de quilómetros levavam-se dias!
E os filhos então? Criar todas aquelas crianças, pois não havia métodos para evitá-las. Aquele bando gritando, chorando, aprontando. E ter que conseguir roupas, comidas, calçados… Por sorte a falta de medicina e higiene livrava o peso de algumas. Hoje temos lugares especializados para tomar conta mesmo que de um recém nascido. As mães não mais se sufocam com isso. Podem trabalhar em paz. Depois disso, as escolas cuidam da educação deles praticamente até a idade adulta. Nos sobra mais tempo.
Tanto tempo e esforço que poupamos! Tanto tempo que economizamos com afazeres banais! Poupamos para… Agora temos tempo para… Para poder trabalhar em coisas mais divertidas! Para poder ficar 8 horas por dia, 6 dias por semana, 11 meses por ano no escritório. Mas não é só isso, estou exagerando como sempre. Fora isso nos sobra tempo, realmente. Dinheiro também. Assim podemos comprar televisores, computadores, vídeo games e celulares para nos entreter no nosso tempo livre. Podemos ir ao shopping perder horas escolhendo nossas roupas e utensílios. Agora sim, temos coisas com as quais vale a pena passar o tempo. Ah o progresso…