Da lua,
não há nada.
Vê-se da janela
a luz amarela
do apartamento em frente.
Reflete no vidro,
mimetizando o belo satélite.
O sol,
da mesma forma,
não forma imagens ou sombras,
não há luz ou calor
que nos toque diretamente.
Sentimos que está lá,
nalgum lugar.
Entre muros e concreto,
entre paredes e tijolos.
Sabemos, pois é quando
os interruptores se tornam desnecessários.
Por isso,
inevitável o relógio.
Que nos conte
quando começa e acaba
o dia.
Na nossa precisão
imposta por nós mesmos.
É desnecessário o guarda,
o carcereiro,
o juíz,
o advogado.
Somos juízes e executores
de nossa própria sentença.
Decididamente
perpétua.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Abalada
Tenho evitado pensar. Nunca
ajudou-me em nada, apenas serviu para despir as virtudes de tudo e mostrar que
a pele nua das coisas exibe não beleza, mas deformidades. Quando tudo que é
externo perde o sentido e torna-se vazio, olhar para dentro igualmente não
oferece saída. O ensimesmamento encarcerado mina a vontade. Se o que está ao
alcance dos braços e dos sentidos nada nos oferece, ao olhar por trás dos olhos
em busca de sauvação e abrigo choca-se com o demônio. O desespero abafa os
sentidos e congela os músculos. Há de haver uma saída. Um recurso para afastar
a mente de si mesma, e esse todos conhecemos: o vinho.
De tal maneira compreendido,
não há muitos caminhos a seguir. Findar-se agudamente com veneno, ou lentamente
com álcool. Rasgar os panos que cobrem tudo que o cerca, mas para isso há de se
estar igualmente nu. Sangrando alvejado por todos que não toleram o ultraje de
ter a linha que separa a pela da máscara questionada. Ou tornar-se estúpido
dando atenção aos sentidos e sendo subserviente ajuntando-se ao rebanho. O
último sendo o mais fácil e menos doloroso. Porém, a voz que grita em sua
cabeça há de ser calada. E o que sobrará? Um corpo sem alma vagando pelo
espaço. Sem brilho nos olhos e com movimentos automáticos robotizados. Sem dor,
mas sem paixão. Sem dúvida e sem vontade. O teatro e a mentira não importam. A
verdade, muito menos.
E quanto a mim? O que tenho
feito? Adiado. Permaneço parado no tempo e espaço enquanto os anos correm,
irresoluto, ausente de coragem, lasso, incapaz de seguir qualquer trilha. A tarefa
aduz o risco em pensar. Onde mais podem nos levar nossos demônios senão para o
inferno? Entre as diversas possíveis escolhas, a escolha que faço é não
escolher. Enquanto isso percorro poucos metros em todas as direções possíveis
experimentando e reservando aos sentidos o direito de deliberação, mas sempre
garantindo a possibilidade de voltar ao ponto inicial. Infortunadamente, para
ir longe, em algum momento há de se abdicar do caminho de volta.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Nas Ruas
Bastava abrir
uma cerveja num bar qualquer ou apenas um suspiro impaciente durante a espera
infinita de uma fila, para escutar de um transeunte, as mesmas velhas
reclamações: “esse país é um absudo”, “brasileiro é trouxa mesmo”, “ ninguém
quer saber de política, só de futebol”, “ninguém faz nada, ninguém reclama”. Todas
essas conversar, repetidas e revividas com diferentes protagonistas e vilões,
teve sempre o mesmo fim. Um sentimento de injustiça e indignação, um grito
entalado na garganta e uma sensação de desengano. De estar fadado a um destino de
infortúnios.
Pois bem. Em
plena Copa das Confederações, véspera de Copa do Mundo, estamos mostrando que
não somos trouxas e pacatos. O Movimento Passe Livre, já se manifesta em SP faz
um tempo. Porém a atitude da PM representando a resposta do estado às
reivindicações, demonstrando total falta de consideração, diálogo e respeito às
pessoas foi um tapa na cara dos Brasileiros. Ou melhor, um tiro de bala de
borracha na cara. Os sentimentos tantas vezes vividos e acumulados nos pontos
de ônibus, nas filas do posto de saúde, na violência diária civil ou policial,
na violência da pobreza e em tantos incontáveis momentos extrapolaram os limites
da pele e o grito preso, libertou-se.
Gostamos de
futebol, sem dúvida. Mas o futebol não nos leva e traz ao serviço. Não nos
atende no hospital. Não educa nossos filhos. Todos nós brasileiros temos plena
consciência disso. Sempre foi uma distração. Uma maneira de pararmos um pouco
de pensar nas mazelas do dia-a-dia e descansar o coração pesado de sofrimento com
uma futilidade. Agora, o maior tiro no pé da política, o “pão e circo” mais
ineficiente da história provou o ponto. Colocamos em cheque, (não apenas no
Brasil, é uma tendência mundial) a efectividade da tão prometida democracia. Na
época da monarquia, os Inconfidentes reagiram ao ‘Quinto’ que era pago à coroa,
acreditando ser um abuso. Hoje, pagamos um democrático imposto de 40%, o dobro,
obrigatório sob o risco de violência. Portanto, estamos nas ruas exigindo os
resultados prometidos por essa ideia mágica, que até então, apenas nos iludiu.
Pode ser que
nada mude, pode ser que isso não leve a lugar nenhum, infelizmente. Porém, não
resta dúvida de que aqueles que estão no poder e nos vigiam pensarão duas vezes
antes de desafiar e tratar feito idiotas toda uma população. Ademais, mostra um
meio prático e eficiente de exigir mudanças, exigir que sejamos tratados com
respeito. A principal modificação antes que alterações concretas ocorram, é
cultural. Isso está acontecendo. Por volta de 1700 os EUA era uma das nações
mais pobres do mundo. Mas a guerra de independência e os eventos que se
seguiram, influenciaram os valores políticos e econômicos da cultura americana,
que abriu precedentes para o tremendo avanço de tal nação. A ideia de que a
democracia tem necessariamente que ser participativa, que não é apenas votar
uma vez por ano, seria o maior fruto do presente movimento. Portanto, não me
resta senão, ficar cheio de esperança. Estamos de saco cheio, e mais unidos do
que nunca. Se esse ultraje contra o povo continuar, a Bastilha irá cair. Cabeças
hão de rolar.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Uma língua
Uma daquelas
semanas, em que todas as tarefas postergadas durante o semestre acumulam para
serem resolvidas em poucos dias. Dormindo mal e comendo pior, o cansaço
colocava em dúvida a minha capacidade de manter o ritmo. Quinta-feira, 21:30 na
estação a espera do metro. A cabeça lutava para racionalizar tudo que ainda
faltava, mas de certa forma aliviada pelas tarefas já resolvidas.
Andando em meio
às pessoas impacientes pelo veículo que nunca chegava, seguia uma miúda, como
dizem por aqui. Passos curtos e ligeiros, tentando acompanhar a mãe, devia ter
por volta de 4 a 6 anos de idade. Observando tudo e a todos com um interesse
que só as crianças têm, antes de se tornarem enfadonhas e chatas como o resto
de nós. Passou, me encarando. Minha mente sobrecarregada e agora mais ainda com
a tarefa de questionar quanto tempo levaria para que finalmente alcançasse o
sono, tentou sem sucesso entender o que aquele olhar significava. E antes que
chegasse a qualquer conclusão, a expressão da face a minha frente se altera, e
ela me mostra a língua.
Aquele gesto me
acertou. Fiquei um tempo pasmo pelo trato de desdém a que fui submetido, e não
tive outra reacção senão rir com vontade. Eu, concentrado nas minhas ocupações
presumidamente importantes, recebi, por obra da eventualidade, a resposta da
devida relevância de meu ofício.
Foi a interacção
humana mais sincera que tive em dias.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Em defesa da vadiação
Não é novidade
para ninguém que a cultura tem um peso enorme em nossas ações e ideias. O que
impressiona é como algo intangível nos influencia ao ponto de termos como
certamente nossos, valores que nos foram introduzidos imperceptivelmente. Com o
feriado, uma amostra de tal valia, acabou por revelar-se.
Por mais que
passe dias de folga lendo, escrevendo, desenhando, tocando violão, assombra-me
um sentimento de inutilidade. Como se não estivesse produzindo nada. Como se
fosse meu dever como ser humano nessa terra, produzir alguma coisa. E pior,
como se o que eu faço com meu tempo livre fosse não apenas absolutamente
irrelevante, mas também de alguma forma, prejudicial.
Mesmo que ler,
escrever, tocar um instrumento musical, realizar tarefas domésticas ou até as
ocupações mais supérfluas como passar o dia deitado assistindo desenhos
animados sejam fundamentais para crescimento cultural e qualidade de vida, é
fatal a sensação de vadiagem e procrastinação. Porque não há horários a serem
cumpridos, não estou executando tarefas, obedecendo a ordens e ninguém irá
avaliar meu desempenho. O tipo de função que ocupa nosso tempo, gerando a
sensação de que somos importantes e necessários. Ledo devaneio. Jamais
desperdiçarei tantos dias quanto no trabalho ou em todos os níveis escolares
que me atarefam desde sempre.
Porém ao
ponderar, percebo que o pior de tudo, não é o sentimento de inutilidade que
citei inicialmente. E sim o de culpa por não compartilhar o juízo de que eu
deveria me preocupar em ser eficiente. Como se cada minuto do meu dia deva ser
empenhado em algo que obtenha um resultado tido como relevante por outrem, que
possa ser exibido para que prove o meu valor. Pudesse eu viver de vadiação, o
faria. Se bem que se me conheço, até nisso seria incapaz de me dedicar com
afinco.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Até longo meu amigo.
E em um segundo secular,
Você sente que tudo mudou.
Que a terra já não é mais redonda.
Não que as dificuldades e afazeres corriqueiros,
tenham ficado piores.
São os mesmos de sempre. Com a mesma exigência
e empenho.
Mas agora, está sozinho.
E não nada que faça tudo ser mais penoso e triste
do que estar sozinho.
O que dava graça e beleza às horas
se fora.
E você, mesmo sem querer,
principalmente sem querer,
Se vê obrigado e endurecer.
Já não há mais tanto riso.
Nem mesmo lágrimas.
É endurecer, ou desistir de tudo.
Até logo, meu amigo.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
E vc, está 'Serto'?
Sempre que
escuto ou leio um discurso ideológico, que defende um posicionamento qualquer,
me impressiona como ambos os lados se assemelham na maneira de defender suas
ideias. É quase unânime quando se trata de assuntos polémicos usar o argumento ad
hominem, de que aqueles que não compartilham o mesmo ponto de vista defendido,
o fazem por serem ignorantes e/ou porque são manipulados. Já que defendem, pra
todos os efeitos, a verdade. Parece provável que tao preposição seja verídica
em alguns casos, pelas devidas razões. Mas não em todos, ou em tantos. Ainda
mais se tratando de assuntos cuja verdade não é tão simples de ser encontrada.
Podem dizer que
é óbvio que alguém vá defender uma causa apenas se fizer sentido, se parecer verdadeira.
Claro. Mas o problema não está em defender uma causa, qualquer seja ela. Mas em
fazer dessa ideia um dogma. A preposição então, não é apenas verdadeira mas
inquestionável. De forma que todos que não a defendem, só o podem fazer, não
pela possibilidade de estarem certos, mas porque ignoram a “verdade”. A partir
deste ponto, sua ideologia se tornou uma religião.
A falha de raciocínio
lógico em tal caso, é mais fácil de ser entendida do que percebida. Ainda mais
laborioso, evitá-la. O processo de religionização ocorre porque ao invés de
fazer uso da razão para fundamentar a ideia, a ideia é usada para fundamentar a
razão. Esse é o grande perigo de fazer parte de grupos ideológicos. Quando levanta
uma bandeira, o indivíduo aceita todo um conjunto de valores e ideias, sem questioná-los.
Afinal, quem que questione tais ideias de um grupo, irá fazer parte dele? E
qual grupo irá aceitar um membro que o questione?
Mas existe uma
razão simples para aceitar ou referir uma ideia como verdadeira
precipitadamente. Nomeado pela ciência de “Efeito Dunning-Kruger”. Um fenómeno em que indivíduos que sabem pouco
sobre um assunto, acreditam saber muito, ou mais do que aqueles que realmente
conhecem. Todos nós temos um exemplo prático de alguém que se porte dessa
maneira. Mais complicado porém, é perceber quando esses indivíduo é você mesmo.
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