sábado, 9 de março de 2013

Como estar sempre Serto (com 'S' mesmo)


É fácil ter razão. É fácil dizer ou escrever algo que a maioria vai concordar e apoiar. Pouco é preciso para que aclamem sua inteligência, perspicácia e sensibilidade. Conquistará a todos, e por incrível que parece, conseguirá até convencer alguns da veracidade de ideias anciãs. Basta usar tom de protesto e reclamar da situação dos pobres. Esqueça os dados e não tente ser muito preciso. Não reclame de algo particular da Vila do Acaba Mundo em Belo Horizonte ou dos arredores de Jequitinhonha-MG. Esqueça. Fale dos “pobres”, ou dos “moradores das favelas”. Se quiser inflar ainda mais seu lado humanitário, reclame da situação da favela do mundo. A África. Sim, como se fosse um país mesmo. Formado por pessoas raquíticas esfomeadas que moram em vilas tribais no meio da savana.
A mesma linha de raciocínio pode ser usada para diversos contextos, para você não precisar falar sempre do mesmo assunto e acabar parecendo um idiota. Mude o alvo. Troque “os pobres” para qualquer outro “oprimido” (e esse é um bom termo, anote). Defenda os camponeses (fica um pouco melhor do que ‘trabalhadores rurais’), os negros, os povos indígenas, os gays, as mulheres, o meio ambiente. Não esqueça de se dizer socialista, ou melhor um pouco, Marxista. Deixe claro que apenas deseja que todos fossem tratados como iguais, mas crie rótulos e levante bandeiras. Afinal, o que essas pessoas precisam é de teóricos que deixem bem claro o quanto a situação delas é ruim.
Claro que os problemas precisam de causas. Não se preocupe, não é agora que lhe exigirão sentido. O maniqueísmo é uma ferramenta precisa e serve com eficiência. Assim como toda essa linha de pensamento, é um modelo simples: demonize a antítese daquele que defende. Culpe, não sem demonstrar indignação, o capitalismo, os ricos, a mídia, o governo, os políticos e o fato de que ao contrário de você, as pessoas são ignorantes, mas apenas vítimas, impedidas de pensar por própria vontade por interesses perversos. Exponha que a solução é fácil: As pessoas deveriam ser mais sensíveis e tolerantes umas com as outras. Enfatize que se todos compartilhassem sua visão, os problemas seriam resolvidos. Não tolere quem discorde ou pense diferente e não perca a oportunidade de moraliza-los, logo que qualquer um que não concorde com você, é ignorante e/ou defende interesses espúrios.
Finalmente, participe de manifestações e poste fotos nas redes sociais para provar que você não só fala como faz. Demonstre sua insatisfação pelo número pequeno de participantes. Critique a postura de todos que estão alheios ao seu exemplo, ou seja, “o povo”, “as pessoas”. Porque são pobres imbecis manipulados ao bel-prazer das grandes corporações. Abuse de frases de efeito e citações. Evite usar o termo ‘sistema’. Caiu em desuso até pelos mais néscios.
Pronto. Sua inteligência e seu modo de pensar diferenciado serão consagrados por todos à sua volta, e você se tornará um ícone para os que lutam por um mundo melhor. Além do mais, estará provado que você não é mais um que está sendo manipulado e que deixa as injustiças acontecerem. Não tenha medo, é tão singelo quanto parece. Com garantias de que funciona, afinal, é um discurso que está em uso por pelo menos 200 anos. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

A madrugada


A madrugada me desperta sem sono
as mesmas perguntas de sempre
novamente me assombram.
Resolvo acender um cigarro.
não para pensar nas respostas
Mas para evitar de pensar nelas.
Meu estômago já tão massacrado
por álcool e café
Não demora a reclamar.
a fumaça rapidamente
empesteia o o quarto
e imediatamente arrependo
da minha decisão.
Mas não antes de terminar o cigarro.
Já são 6 e 15.
Tarde demais pra dormir.
Cedo demais para levantar.
Tenha um bom dia, diz o dia. Em tom de deboche.
Vai se fuder. Eu respondo com sinceridade.
E permaneço imóvel
até não aguentar mais.
Mas eu sempre aguento.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um dia como outro qualquer



Sim. Esperava o velho cliché de um dia como outro qualquer. Mas na verdade, fora um tanto pior. Demorado, mesmo para uma quinta-feira. O sentimento de incompetência profissional e fiasco pessoal eclodiram quase que ao mesmo tempo nas bravatas rudes do chefe e ao descobrir, por acidente, que o antigo (e nem por isso menos eterno) amor estava noiva de um qualquer. 
Resignado, ao menos já estava em casa. A fome remanescia extinta, mas não faria falta. De fato, havia muito para ser digerido hoje. Arranca as roupas na sala mesmo, logo que chega. Afinal, não há mais ninguém em casa. Não há mais ninguém em canto algum. A camisa molhada de lágrimas e suor, a calça amarrotada e no corpo por mais de uma semana, se mostrava tão liquidada quanto quem a usava.
Sentado no vaso sanitário, se vê burro, velho, disforme e falido. No momento, não sente em nada diferente da matéria fecal que suja a porcelana alva. É apenas uma extensão de seu corpo. Sem forças para acreditar em mudanças positivas, se pergunta se as coisas podem ainda ficar piores. Mas o velho axioma mostra-se plausível, quando um som mata o silêncio sepulcral do banheiro e ao girar o rosto, um segundo antes das luzes se apagarem, vê a maçaneta dar meia volta...


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Então imaginemos a cena: Um indivíduo, depois de um mês em estado de coma, acorda hoje, subida e inesperadamente. Passados os momentos de reencontro e emoção com a família e amigos, questiona sobre os acontecimentos que perdera no tempo em que esteve inconsciente.
- E então, o que aconteceu de novo nos últimos 30 dias?
- Bom, eu comprei um carro 0 Km, caiu um meteoro na Rússia, o Papa renunciou e a Coreia do Norte fez um teste de uma arma nuclear. – Responde aquele amigo zombeteiro que todos temos.
- Está bom. E você quer que eu acredite em você?
- ahahahaha. Estou brincando. Não comprei um carro.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Ah o Progresso....


O mundo contemporâneo é maravilhoso! Pense bem, tudo está disponível de acesso fácil, pronto para nos ajudar, diminuindo nosso esforço e aumentando nosso tempo livre. Imaginemos como seria laborioso algo tão banal como nos alimentar. Cada folha, cada grão, cada vegetal, deveria ser cultivado e colhido. Meses para chegar ao resultado de uma trivial cenoura, mirrada e raquítica, em nada comparada com as encontradas no supermercado. Carne? Quem nunca participou de um abate de porco no interior de Minas não imagina o quanto é trabalhoso. Isso sem contar a cria do animal em si. As galinhas hoje demoram cerca de 28 dias para ser abatidas gordas e suculentas. No sítio, com 28 dias, o pinto nem pena deve ter. Nada disso nos importuna. Não mais. Basta andar poucos quarteirões de carro e obtemos tudo pronto. Ou se preferir, comprar pela internet. Sem nem mesmo ter que sair de casa. Grande economia de tempo e esforço!
Já imaginaram costurar as próprias roupas? Isso considerando o avanço de ter o tecido pronto. Nem quero saber o longo processo envolvido do plantio do algodão até obter o pano trançado. Apenas para ilustrar o quão simples nossa vida é hoje, comparada com a de alguns séculos atrás. Tudo demandava muito esforço e tempo. Mesmo as coisas que nos são banais. Roupas, comida, calçados, materiais de higiene, utensílios domésticos. Para andar poucas centenas de quilómetros levavam-se dias!
E os filhos então? Criar todas aquelas crianças, pois não havia métodos para evitá-las. Aquele bando gritando, chorando, aprontando. E ter que conseguir roupas, comidas, calçados… Por sorte a falta de medicina e higiene livrava o peso de algumas. Hoje temos lugares especializados para tomar conta mesmo que de um recém nascido. As mães não mais se sufocam com isso. Podem trabalhar em paz. Depois disso, as escolas cuidam da educação deles praticamente até a idade adulta. Nos sobra mais tempo.
Tanto tempo e esforço que poupamos! Tanto tempo que economizamos com afazeres banais! Poupamos para… Agora temos tempo para… Para poder trabalhar em coisas mais divertidas! Para poder ficar 8 horas por dia, 6 dias por semana, 11 meses por ano no escritório. Mas não é só isso, estou exagerando como sempre. Fora isso nos sobra tempo, realmente. Dinheiro também. Assim podemos comprar televisores, computadores, vídeo games e celulares para nos entreter no nosso tempo livre. Podemos ir ao shopping perder horas escolhendo nossas roupas e utensílios. Agora sim, temos coisas com as quais vale a pena passar o tempo. Ah o progresso…

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Felicidade

Parece que isso é uma obsessão. Ser feliz. Já de início me vejo com problemas ao tentar saber o que é isso. Se perguntar para um número qualquer de pessoas, terá o mesmo número de diferentes respostas. A maior parte dos questionados, não tem realmente a ideia perfeita do que realmente é felicidade e o que essa palavra significa. Mas é consenso todos a quererem de imediato, que dure para sempre, e o que é pior, você também deve querer. Tendo percebido isso, a minha confusão aumenta ainda mais. Como vou querer algo que mal consigo definir e entender? É uma corrida em busca de um objecto inalcançável, que desde a largada, não se sabe o que se busca.
Bom, mas dirão que estou complicando o assunto, e isso é o que me atrapalha em ser feliz. Dirão: “Felicidade é alegria de viver. É viver, vendo o lado bom das coisas, e conseguir ser feliz com as pequenas coisas do dia-a-dia. É o que faz a vida valer a pena.” Paro por aqui, apesar de saber que há ainda infinitas definições e filosofias a respeito. Todas muito bonitas, sem nexo aparente com a realidade dos fatos, e frequentemente envolvendo uma relação com o divino, o que me causa ainda mais problemas.
No fim das contas, todas estas maneiras de interpretar o significado da tal palavra tem em comum um modo de pensar: se sentir bem, independentemente do resto do mundo, ou da merda de vida que leve. Dizer para “ver o lado bom da vida”, ou “aproveitar as pequenas coisas do dia-a-dia” é exactamente a mesma coisa. Pois as coisas boas da vida, são de maneira geral, pequenas. Ainda mais as do dia-a-dia. Em todo um dia achamos uns míseros momentos aproveitáveis. Durante todo o resto, fazemos coisas que não queremos, ou que não faríamos, caso tivéssemos coisas melhores para fazer. Então, o que tenho a fazer é, me sentir feliz porque em todo um dia difícil e trabalhoso, acontecem alguns momentos legais? Sinto muito, mas não é convincente.
Há ainda uma retórica comum, que eu não poderia deixar de falar a respeito, pois é o pior argumento: “Como você pode reclamar da vida, com tanta gente em uma situação pior que a sua e que gostaria de estar na sua situação?” Então quer dizer, que nivelamos a nossa felicidade partindo do ponto mais baixo de comparação? Ou seja, se existe alguém em situação pior do que a nossa, isso é motivo para que sejamos felizes? Na verdade me deixa ainda mais infeliz. Outra coisa, generalizando esse raciocínio, ninguém no mundo pode se queixar, pois sempre existe alguém em pior situação. Tenhamos como exemplo os que já morreram, e assim instantaneamente todos somos obrigados a sermos felizes, pelo fato de estarmos vivos! O que espanta é há pessoas que realmente acreditam nisso. E como a simples existência de um indivíduo que teoricamente tem a vida pior do que a minha, me tira o direito de reclamar da minha vida? Então é essa a resposta? Temos que viver sorrindo, independente dos infortúnios? Não me parece razoável.
          Não se trata de viver miserável e reclamando da vida e de tudo. Mas de ser realista com a situação presente, e encarar as coisas como elas são, e não ficar aguentando tudo e fantasiando que a vida é um mar de rosas. Pois só assim podemos mudar qualquer coisa. Além do mais, existem problemas irremediáveis e não nos leva a lugar algum qualquer tipo de mobilização que não seja nos conformarmos a respeito. Mas as pessoas têm modos diferentes de lidar com esse tipo de situação e quero apenas defender o direito daquelas que não querem ser felizes. Eu, particularmente estou bem assim. Nem feliz, nem miserável. Apenas vivo.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Estou

Estou de saco cheio
E é só.
Não é depressão, melancolia, solidão
ou qualquer outro diagnóstico
médico ou não medico que
queiram me dar.
É saco cheio.
A melhor definição que encontro.
Estou de saco cheio!
Mas de que? Por quê? Perguntariam.
A começar de tantas perguntas.
E a terminar por haver tantas respostas.
E todos sempre sabem a resposta!
Me deixem na minha falta de resposta.
Me deixem na minha falta de dúvida.
Estou num vazio. E isso pra mim
é o suficiente.
Afinal, o que mais há?
Além de um infinito e chato
vazio.