segunda-feira, 23 de maio de 2011

Seja um de nós!

Sente um vazio na alma? Falta de sentido na vida? Não se preocupe, é sua aparência.
Use nossas roupas, compre nossas calças, experimente nossos sapatos, use nossas camisas se vista como nós, pareça como nós, cheire como nós, seja como nós. Não somos uma marca, somos um estilo de vida. Faça parte do nosso seleto grupo. Anuncie nossos produtos na sua camiseta, na sua calça, na sua personalidade.
Ainda é pouco? Não se preocupe, temos a solução. Use nosso penteado. Esticamos, cortamos, pintamos. Aumentamos, diminuímos, alisamos, enrolamos, arrepiamos.
E quanto ao seu rosto? Isso é fácil. Repuxamos, cortamos, esticamos, moldamos. Diminuímos, aumentamos, quebramos, tiramos, colocamos, paralisamos, afinamos, elevamos, alargamos, deformamos.
Empinamos os narizes, elevamos as sobrancelhas, tiramos as rugas, aumentamos os lábios. Afinamos os rostos, delineamos os olhos, paralisamos sua face. Não garantimos expressões, mas garantimos a aparência.
Mas seu corpo te preocupa? Nós resolvemos isso. Tiramos, colocamos, alargamos, diminuímos, levantamos, moldamos, fortalecemos, criamos.
Aumentamos seus peitos, arredondamos sua bunda, delineamos suas coxas, recauchutamos sua vagina, aumentamos seu pênis, diminuímos sua cintura te fazemos mais magra. Tudo que estiver em excesso nós retiramos, o que faltar, fazemos uma versão melhor de silicone.
Agora que já tem nosso uniforme e nossa aparência, pode cantar nossos hinos e participar de nossas cerimônias. Seus problemas individuais de emoção e personalidade, não existirão mais! Porque você deixará de ser quem é para ser mais um de nós! Meus parabéns!
Porque afinal a grande verdade desse mundo é que :

“O mundo trata melhor quem se veste bem.” “De um jeito ou de outro todo mundo usa.” “Uma idéia comprada desde 1850.” “ Seja bem visto.”  “Deixe a pessoa que você era para trás.” “Tudo que você quer ser.” “Leve vantagem em tudo.” “É tudo que você precisa.” O melhor da vida”. “Viva o que é bom.” “Só chega à perfeição quem pratica a perfeição.” “A primeira impressão é a que fica.” “O melhor pra você.” “Porque você merece.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Como se viver fosse grande coisa...

É complicado entender como uma coisa natural que acontece o tempo todo, todos os dias, e freqüentemente perto de nós pode nos chocar tanto. Falo da morte.
Todos e tudo que esta vivo vai morrer, tudo o que vive morre. Deveria ser algo corriqueiro quando alguém morresse. É natural, a única coisa que varia é que uns levam mais ou menos tempo, mas o resultado é o mesmo. Há pessoas que sequer conseguem olhar para um corpo sem vida, ou para um animal sendo sacrificado.
Quando ficamos tão idiotas? É algo delirante a negação da realidade de que nossas vidas não têm a menor importância. Simples assim. Na verdade a vida de ninguém tem importância. As pessoas que nunca existiram ou que já morreram tem de concordar comigo. A falta da existência delas não faz a menor diferença. Existem mais criaturas e espécies mortas do que vivas.
Mas queremos no sentir maiores do que isso. Quem é que quer admitir que sua própria vida não vale nada? Mas é assim que é. Supervalorizamos essa coisa toda de: vida, direito à vida, santidade da vida. Bobagem. Vida essa que não tem mais importância do que a da barata que exterminamos com todo o prazer. Mas gostamos de pensar de forma diferente. É óbvio o porque: estamos vivos, e somos humanos. Temos a mania de engrandecer as coisas por pura conveniência, puro interesse. Não estamos nem aí quando ficamos sabendo que 100 mil pessoas morreram por causa de uma merda qualquer, o que nos preocupa na verdade é como a morte dessas pessoas pode nos afetar, e que na próxima vez nossos nomes possam estar incluídos na contagem.
Eu particularmente estou cagando. Pode morrer o tanto que for, no Iraque, na Sérvia,ou em qualquer lugar longe que seja, não tenho a menor ligação afetiva com ninguém desses lugares. Se não me toca o fato de tanta gente já estar morta, porque haveria eu de me preocupar com as que estão morrendo se também não as conheço, e principalmente se isso é natural? A morte de pessoas queridas dói, nos faz sentir saudades delas e do prazer que a existência delas no proporcionava, apenas isso. É subjetivo, faz falta para nós individualmente. Mas para humanidade, para a sociedade ou para a vizinhança, morrer não faz a menor diferença.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Esperemos....

Trancados em caixas de concreto,
Esperamos.
Em meio ao cinza de nossas ruas,
E ao barulho de nossos carros,
Esperamos.
Em meio à rotina chata de nossas vidas
Entre pausas de cigarros e
Bebedeiras injustificáveis,
Esperamos.
Em meio ao silêncio dos responsáveis
E aos gritos dos inocentes,
Esperamos.
Esperamos
Algo que de sentido à nossa existência
Algo de extraordinário
Em meio à nossas vidas ordinárias,
Esperamos.
E nos dias que se arrastam longos
Em meio à espera,
Mais uma vez
Morremos.

domingo, 24 de abril de 2011

A morte de nosso herói.

Mas porque raios comemoramos a morte de um cara? Obviamente não comemoramos o fato de que ele esteja morto, mas o ritual perante um assassinato brutal não me parece saudável. Os moralistas repudiam violência na televisão e nos jogos de vídeo game argumentando que não faz bem para as crianças, mas colocam seus filhos frente a uma cena aterrorizante: a tortura e crucificação de um homem. É difícil imaginarmos visão mais cruel do que a do teatro encenado em cada cidade e a do filme exibido repetidamente e insistentemente nos canais de televisão aberta.
O símbolo por si já é deprimente. Uma cruz, e freqüentemente com um homem preso a ela. Faz-me pensar em uma pergunta, desconheço a autoria, que diz: “Se Cristo fosse eletrocutado, andaríamos com replicas de cadeiras elétricas penduradas em nossos pescoços?” Eu olho para o objeto preso à parede da sala de casa, e me choco. A religião é algo que deve nos confortar e acalmar nossas angustias perante o sofrimento irremediável da vida. Mas ao ver essa cena, isso apenas me deprime. O culto a essa morte nos amedronta. Serve para lembrar que nosso Deus não é tão bom quanto pensamos.
 Como podemos ter um ritual de morte como algo sagrado? Não me venha com a história de que cristo “morreu para pagar nossos pecados” como justificativa, pois é essa a parte mais desumana. Matamos um cara para sermos perdoados por Deus? Então, no século XXI aceitamos um sacrifício humano na nossa cultura com naturalidade? Tal homicídio foi justificado? O que justificaria um assassinato brutal de um inocente? Apenas para esclarecer, quando uso o termo “nós”, não digo os católicos ou cristãos, porque não faço parte de nenhum dos dois grupos. Mas generalizo porque trato de nós, os ocidentais. Nossa cultura foi fundamentada no cristianismo. O Brasil é um país cristão.
O que parece é que somos mais apegados a tradições medievais do que imaginamos. A forma de pensar quando assumimos que o assunto é religião muda completamente em relação ao que pensamos no dia-a-dia. Crimes brutais nos chocam, e jamais aceitamos justificativas para isso. Mas em um caso em especial, é diferente. Jesus foi brutalmente torturado e assassinado e sequer seus apóstolos tiveram a decência de fazer algo para defendê-lo. Ao contrário, mentiram e se esconderam, permitindo uma injustiça. Judas Iscariotes foi o único que teve alguma dignidade e se matou, incapaz de lidar com a situação. 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Dias longos, vida curta.

Nossas vidas são um saco. É isso, não tem outra. Sempre pensamos que diferente dos outros, nós sabemos aproveitar a vida. Sabemos nada, os dias passam sem que percebamos e no fim das contas somos apenas um bando de velhos chatos e ranzinzas. Passando por uma loja de animais, fico olhando um pequeno roedor  que corre sem parar dentro de uma rodinha de metal. E me pergunto como que esse animal consegue correr o dia todo sem sair do lugar? Então me lembro que estou atrasado, preciso correr...
Estamos todos nessa elaborada rodinha de hamster que é a nossa rotina. Não me venha com essa de “carpe diem” de “viver a vida intensamente” que isso é papo furado de livro de auto-ajuda vagabundo. Coisa ridícula. Até parece que podemos aproveitar o dia entre filas de caixas e viagens de pé em ônibus lotados em um trânsito infernal. Entre chefes chatos e pessoas sem educação. Estamos apenas tentando garantir nosso sustento (e também umas garrafas de cachaça pra poder agüentar a vida). Simples assim. Na maior parte do tempo, fazemos coisas de que não gostamos, para comprar coisas que não precisamos com o dinheiro que não temos.
“Mas então a vida não tem sentido?” Que história é essa? Porque raios as coisa tem obrigatoriamente que ter sentido, que ter razões. Não há razão em viver, apenas estamos vivos. Sem razões, sem motivos, sem porquês. Qual a razão do carro chamar carro, e da mesa chamar mesa? Nenhuma, eles apenas tem esses nomes. Qual o motivo de termos 5 dedos? Não existe motivo, é assim que somos e pronto. As pessoas precisam aceitar os fatos e parar de exigir razões. E aceitar as coisas como realmente são ao invés de acreditar em uma fantasia romântica. É por isso que existe tanta gente “desmotivada”, sem “razões para viver”. Estamos vivos porque estamos vivos. E vivemos para continuarmos vivos. É por isso que agüentamos as filas, os ônibus, os chefes e o transito. Por isso agüentamos firmes nas nossas vidinhas sem graça. Porque precisamos garantir que continuaremos vivos. Isso é muito mais importante do que “fazer a vida valer a pena”. Mais de 90% do nosso tempo é uma chatice sem tamanho. Mas nos 10% é realmente bom. A meu ver, 10% valem mais do que nada. Mas por favor, pare de choramingar, e vá se distrair em sua rodinha. 

domingo, 27 de março de 2011

Daniel....

Daniel, Daniel,
não se mate.
Sua solidão, sua melancolia.
Sua irritação corriqueira,
Seu tédio, sua chatice.
Não se engane,
São duradouros.
Mas nos dias que se arrastam longos,
há poucas horas de bom tempo.
Pedras mínimas de ouro
Que catadas com cuidado,
Fazem valer à pena.
Não sei o que.
Fique firme Daniel.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Termos Ridículamente Corretos.

Porque tudo o que vamos fazer tem que ser coberto por uma camada de hipocrisia? Como se já não bastasse termos que fingir que gostamos de coisas e de pessoas de quem não gostamos e assumir posturas com as quais não concordamos, agora também temos que “enfeitar” nossas palavras, para soarem mais “aceitáveis” aos ouvidos sensíveis dos hipócritas.
Para começar, não existem mais negros, essa palavra é proibida. Agora são “afro-descendentes”. O que há de errado com a palavra “negro”? Uma ofensa depende do contexto e da forma em que se usa o termo. E que raios significa “afro-descendente”? Somos brasileiros! Todos nós somos afro-descendentes! Todos temos uma descendência genética, e nos raros casos em que esta não existe, existe ainda a descendência cultural que é muito mais importante!
Não existem mais aleijados. São “deficientes físicos”. Aleijados, um termo que está na bíblia cristã. "Jesus curou os aleijados." Palavra simples, direta. Não diminui o valor de ninguém.  Cegos agora são “deficientes visuais”.  E os viciados?  Agora são “pessoas com transtorno do abuso de substâncias”. Que porra é essa? Parece que é algo mais tranqüilo, corriqueiro.  –Verdade que você é viciado em crack?  - Não, eu tenho transtorno do abuso de benzoilmetilecgonina. - Ah, que susto! Achei que você fumava pedra. -É, eu fumo. Mas não sou viciado.
Não existem mais pobre, agora são “pessoas de baixa renda”, não existem mais gordos, agora são “acima do peso”. Os anões acabaram. São “pessoas de baixa estatura”. Velhos agora são “indivíduos da terceira idade” ou pior ainda “da melhor idade”. Envelhecer faz parte da vida. É algo natural. Morrer também é. Mas esqueci que as pessoas não morrem, elas “vão para um lugar melhor”. E também não cagam, elas “evacuam”. Termo ótimo! Apenas dá a impressão de que as merdas estão saindo desesperadas de um prédio que está sendo demolido.
-Ah, mas são termos pejorativos! - Choram os imbecis de plantão. Não. São termos bem esclarecidos que definem condições. Não há nada de errado nisso. Ao contrário, é por isso que devemos usá-las. Facilitam o entendimento. Mas não, todos preferem usar nomes longos e confusos que nos fazem não ter idéia nenhuma sobre o que tratam.  Mas que de alguma forma, esses termos vazios de significado, amansam os humores de um bando de chiliquentos que não suportam lidar com as coisas da forma que elas realmente são. Mas isso também tem outra justificativa para essas pessoas. É que também não existem mais pessoas burras. Agora são “indivíduos com dificuldades no aprendizado”. Sorte deles.