terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Arte de Gil Vicente


Graças à repercussão causada pelo posicionamento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) contra a ultima exposição do artista plástico Gil Vicente, tive o prazer de poder conhecer essas obras. Não pessoalmente, mas mesmo assim são fantásticas. O artista pernambucano, criou em carvão sobre papel, imagens em tamanho real do próprio artista matando personalidades que ele chama em entrevista a Veja de "uns ladrões sujos".
Gil deixa clara sua indignação com essas pessoas e a expressa da forma mais forte possível: matando-as. Nada é mais óbvio do que isso. Nada é mais sincero do que isso. Sem hipocrisias, sem eufemismos. Ele nos faz lembrar do dramaturgo homônimo português, que condenava as figuras sociais de sua época ao inferno.Mas diferente do escritor medieval, o artista se coloca na posição de carrasco. A cena é de um ódio frio, mas heróico. Basta olhar atentamente por alguns segundos para se enxergar claramente a cena do instante anterior ao desenrolar trágico. Brilhante. Vale a pena conferir as outras imagens:
E a entrevista do autor das obras para Veja:

Não vou comentar sobre a decisão da OAB, porque é incrivelmente ridícula por si só. Não merece que o post destinado ao Gil Vicente dê enfase a isso. Também não quero questionar se concordo ou não com as pessoas retratadas, foi escolha pessoal do artista. O importante é a forma com que ele demonstra a sua indignação e sua coragem para fazê-lo, e não o objeto retratado.
Parabéns Gil Vicente.

domingo, 19 de setembro de 2010

Trato de Hipocrisia Recíproca

Todos nós vivemos o mesmo teatrinho. Acordamos cedo e logo ao abrir os olhos nos despedimos de quem realmente somos. Desse momento adiante, o que se apresenta ao mundo é a nossa persona dramática. Vestimos a roupa e a máscara que usaremos no dia, criamos nossos desejos, tanto os de longo prazo quantos nossos caprichos momentâneos. Criamos uma ilusão sobre quem somos, sobre quem queremos ser, sobre quem as outras pessoas são e sobre o que elas pensam sobre nos. Então nos dedicamos à tarefa de tentar mostrá-las que não somos quem eles pensam que somos, e sim quem nós mesmos imaginamos que somos, ou que deveríamos ser. A todo custo precisamos que acreditem nisso, porque nós mesmos precisamos acreditar. Não dá pra acreditar que cada um de nós não passa desse ser estúpido, limitado, sem virtude que se encara diariamente no espelho.
Então começa o espetáculo. Temos que esconder nossos defeitos e nossa falha de caráter a todo custo. Para ficar mais real, é necessário que acreditemos na personagem. Precisamos acreditar que somos honestos, que somos inteligentes, que somos leais, que somos honrados. Precisamos acreditar nas qualidades que nós não temos. ‘Não me peça provas além de minhas palavras, que eu não pedirei que você prove seus valores. Assim estamos combinados. ’ É o significado das trocas de olhares entre os seres humanos.
Percebemos também que algumas pessoas exigem de nós qualidades diferentes para que se mantenha o trato de hipocrisia recíproca. Negociamos as qualidades aceitáveis para se manter a relação. Isso em qualquer relação entre os Homo sapiens sapiens . Para algumas pessoas não faz diferença que a outra seja uma pessoa séria, mas exige fidelidade, ou então é irrelevante que seja justa, contando que seja divertida. E por aí vai. Vamos selecionando as características de nossa personalidade, nossas qualidades e defeitos e a do próximo de acordo com cada tipo de interação, de acordo com a conveniência. É óbvio como não somos a mesma pessoa com nossos pais, amigos, professores, namoradas. Estamos nos montando e remontando o tempo todo. Por isso ficamos com a sensação vazia de não saber quem somos ou o que queremos de verdade. Isso explica toda a confusão mental a cerca de nós mesmos. Porque no final das contas, não somos os atores que apresentam o espetáculo. Somos o diretor que está sentado invisível no fundo do teatro tentando organizar a apresentação. No fundo, conseguimos apenas interpretar ou ver os atores de cada um de nós. Podemos até dar um palpite ou outro durante a peça, porém dirigir é inacessível a nossa consciência.
Por isso também que não gostamos da verdade nua e crua. Quebra o trato de hipocrisia recíproca e coloca em xeque a nossa personalidade falsa e efêmera. A máscara é tudo o que somos, sem a máscara não somos nada. Portanto necessitamos de auto-afirmação. Precisamos masturbar nossos egos e os egos das pessoas de quem gostamos. Precisamos afirmar nossa superficialidade, porque é tudo que está ao nosso alcance e ao alcance das pessoas próximas a nós. Não critique a minha superficialidade, porque é tudo que eu tenho!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Rotina superficial auto-aplicada.

Internet.
Fui obrigado por falhas técnicas a ficar sem internet. Inacreditável. Fiquei pasmo ao perceber como tenho tempo disponível, e em como esse tempo estava sendo mal aproveitado, pra não dizer jogado fora.
Uma revista, por mais interessante que seja, com repetidas leituras se torna tediosa. Um filme ou programa de TV, a mesma coisa. Vale também pra outros meios de entretenimento como jogos ou música. Porém a internet tem tanta variedade de coisas e assuntos, todos de fácil acesso e já mastigados por alguém, que nos distrai de uma forma que tende ao infinito. Está tudo a "um clique de distância". Não é preciso pensar, analisar, avaliar. Só ver. É um passar incessante de quadros coloridos. Nisso que meu tempo estava sendo investido. Um entretenimento superficial e vazio se não for aproveitado com ponderação. Obviamente, tem seus pontos positivos: conheci gente interessante, aprendi coisas fantásticas, e me mantenho atualizado sobre o que de relevante que aconteceu no mundo. Porém, o tempo que despendi com essas tarefas que acrescentaram algo na minha vida foi pouco se comparado ao tempo que perdi com coisas completamente irrelevantes.
Nos dias que passei fora deste mundo paralelo, e me concentrei no mundo real, conversei mais com o pessoal da minha casa, meu estudo rendeu mais, e estou lendo mais. Até comecei a correr! Meu dia ganhou umas quatro horas. Na verdade eu deixei de perder esse tempo. Tenho consciência de como essa ferramenta é importante, e inclusive tive problemas por ficar sem certas informações que precisava com urgência. Porém, viver fora desta tela brilhante é mais proveitoso, e engrandecedor.
Pensando bem, qual o sentido, de no tempo que temos disponível, o precioso tempo que temos para fazer o que queremos em função do que somos obrigados a fazer, disperdiçá-lo procurando um entretenimento vazio? Preciso de entretenimento? Quando analiso essa situação, me sinto um imbecil cansado da própria vida, que precisa de que um bobo da corte apareça na minha frente para tornar minha vida estúpida e sem graça em algo mais interessante. Uma dose de rotina superficial auto-aplicada. Tenho certeza de que isso é o que realmente ocorre com muitas pessoas, porém, eu estou longe de descer a esse nível.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Críticas Aleatórias

Como se já não bastasse as religiões pra nos dar um "guia prático de como se viver a vida", agora ainda temos que aturar tudo quanto é sujeito metido a esperto nos dizendo o que é certo e o que é errado e acentuar os clichês que a meu ver ja são suficientemente bem difundidos. Todo mundo sabe o que é certo e errado, e todo mundo tem razão, e todos sabem a verdade!
É muito fácil criticar a cultura popular. É cliche, banal e idiota. Falar que "a televisão aberta é um lixo, novela não presta, casos da vida é baixaria inúti, axé, funk, e o "rebolation" são coisa de gente inculta e estúpida.E assim são criticados, não so os programas em si,mas quem gosta deles.
É apenas um modo de parecer elitista e intelectual. È simplista, preconceituoso, arrogante e não me impressiona.
A televisão aberta não tem o intúito de educar e ensinar nada a niguém. É feita simples e unicamente pra entreter. Eu sinceramente não consigo passar nem 5 minutos assistindo uma novela mas minha mãe adora. Muitas mães adoram. As pessoas gostam de estórias. Casos. Por issoo Programa do Ratinho e o Casos da vida, fazem sucesso. Não há nada demais nisso.
O mesmo com as músicas do "povão". Axé e funk não são estilos em que o ouvinte vai ficar concentrado na música e no brilhante conteúdo poético dela. Isso é exigência de pseudointelectual.
Esses estilos tem o único e claro objetivo de empolgar as pessoas e fazê-las dançar. E nisso cumprem perfeitamente seu papel.
Claro que concordo que as vezes as baixarias passam do limite. Mas tudo depende não do compositor, mas da aceitação do público.Eles é que controlam, censuram e determinam o que faz sucesso ou não. Enfim, são músicas para serem dançadas. Simplesmente.
Esse Justin Bieber. Nunca ouvi nada desse garoto, nem um único trecho de música nem nada. Mas eu não entendo como que todo mundo critica o menino. Eu não sei se as músicas são boas, se ele é talentoso ou não, mas não é isso que eu vejo todo mundo criticando. Falam mal do cabelo dele, falam que ele é gay, como se isso fosse um defeito, que ele é ridículo e etc. Não falam nada de construtivo, ou que pelo menos tenha sentido. Mas que tipo de ídolo as pessoas querem que as meninas de 13 anos tenham? Saindo esse vai aparecer outro igual e pronto! É claro que é ridículo para um sujeito velho e barbado gostar desse tipo de sucesso "teen". É obvio que é estúpido um marmajo ter um poster desse garoto no quarto, tão ridículo quanto ter um poster do Dragon Ball. Isso é coisa de criança.
Não estou colocando aqui a minha opinião pessoal sobre essas coisas, mas seria algo que eu poderia dizer se gosto ou não. Mas não que alguém deveria gostar ou não. Como se todos que tivessem uma opinião diferente estivessem errados. São escolhas subejtivas, e ao meu ver, não vivemos em uma ditadura.
Não sou contra que as pessoas expressem suas opiniões. Acho bacana, gosto disso. Tanto que eu mesmo o faço. Mas o que me incomoda é essa esculhambação. Ver o sujeito vomitando um monte de clichê, afirmando o óbvio volto a dizer, de uma forma simplista, como se fosse o dono da verdade. Não é questão de ser ou parecer humilde. Mas não aguento gente insolente com essas opiniões idiotas. Não vim mostrar a verdade, e nem corroborar o ponto de vista de ninguém. Mas apenas propagar um pouco de dúvida e tentar mostar que existe um outro lado , e uma outra forma de se ver as coisas.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Textos aleatorios...

De que vale o amor? De que vale a verdade? Que valor tem as crenças, a esperança ou
qualquer outra instituição criada pra nos iludir senão o valor das mais sinceras das
mentiras?
De que vale imaginar tudo isso? Qual o valor da verdade, senão ser imune à esperança e
à felicidade?
Não há caminhos, dicas, métodos nem passos certos nessa vida.Não há o que ou em quem
confiar. Senão no sombrio giro da fortuna.
Não temos sequer o luxo de confiar em nós mesmos. Agimos como um bando de idiotas
descontrolados. Nos enganamos o tempo todo, tomamos decisões sem sentido e agimos por
impulso. Mas mantemos a postura de quem sabe o que fez. De quem é dono do próprio nariz.
E chegamos à arrogancia imatura de afirmar: "eu sei me cuidar." Sabe porra nenhuma.
Essas cicatrizes no seu corpo, na sua alma e na sua auto-estima gritam pra você parar
de acreditar nisso, abaixar a cabeça e inutilmente, humildemente, refletir. Outra porção
de erros virão assombrar-lhe. Não se assuste. Feridas novas se abrirão. Outras antigas
voltarão a sangrar. Mas não é so dor, sorrisos virão as vezes...

sábado, 29 de maio de 2010

Penso, logo hesito.

Acredito na dúvida. Mas não em uma dúvida descontrolada e dogmática. Não em uma dúvida universal, ou em uma crença no desconhecimento. Porque certezas existem. Mas as certezas não podem ser inquestionáveis. É aí que cabe a dúvida. Uma dúvida infinita, em tempo não intensidade, de que as coisas podem não ser assim. Que por um momento, por um evento probabilistico, podemos estar vendo as coisas de forma equivocada. A existência da dúvida deve ser aceita.
A crença em Deus, e nas religiões nos entregam verdades universais inquestionáveis. Verdades prontas. São verdades que assumem ter, mas não tem. E muito incoerentes e sem sentido, diga-se de passagem. Mas que as pessoas engolem de uma forma assustadoramente fácil. Abrem mão de suas opiniões e julgamentos. Abrem mão de pensar racionalmente sobre os fatos, e isso necessáriamente acaba entrando em um ponto, que interfere negativamente na vida e nas verdades universais de outras pessoas.
E isso não existe somente na religião. Isso é em tudo. Tudo e todos parecem ter razão. Eu mesmo sou um que assumo um ponto como se fosse a maior verdade do mundo. Mas estou aberto mudar de posição se existir uma base racional, ou se aparecer uma evidencia nova a respeito do assunto. Todos vendem suas verdades. Religião, livros, jornais, revistas, televisão, críticos,internet, autoridades. Mas o questionamento deve ser constante. Ainda mais nos tempos globalizados, tem que ter muito espírito de luta para se livrar do bombardeamento de mentiras enfeitadas. Mas persisto.
Contudo, vamos colocar os pés no chão, e fazer uso do senso crítico. Quando falo da existência da dúvida, é de forma a otimizar o conhecimento, e manter nossas cabeças abertas para mudanças na forma de ver o mundo. E não ficar duvidando de tudo quanto é bobagem, e aceitar todas as possibilidades existentes como possíveis. Porque é comum um bando de idiotas afirmar a falácia de que quando não se pode ter certeza sobre algo, todas as possibilidades devem ser levadas a sério. Estupidez pura. Os eventos na maior parte das vezes deixam poucas opções plausíveis que os expliquem. E mesmo se existir explicação no momento, que se mantenha assim até que surja algo convincente. Uma falha é necessária para se duvidar de uma teoria. Mas devem existir muitas evidências para aceitá-la.
Mas como eu ja disse, as pessoas não estão interessadas em verdades não. Estão mais preocupados com seus desejos mesquinhos suas ilusões e suas alegrias de curto prazo. Estão mais preocupadas como disse o gênio George Carlin, em "masturbar" o ego umas das outras. Uma mentira conveniente vale mais do que mil verdades.

domingo, 2 de maio de 2010

Tabacaria, Fernando Pessoa - Alvaro de Campos

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...)


Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(...)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

(...)
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


Álvaro de Campos, 15-1-1928